Vultos do incêndio: o novo professor de Zoologia

Camila Zarur


Sentado em frente à lateral direita do Museu Nacional, Vinícius Padula observava queimar o seu futuro escritório. Na última sexta-feira, 31 de agosto, havia tomado posse para o cargo de professor no Departamento de Invertebrados da UFRJ, com base no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Estava animado para começar no novo emprego; dois dias depois, soube do incêndio no prédio histórico.

O fogo começou por volta das 19h30 do domingo, 2 de setembro. Padula estava na casa do pai, em Vila Isabel, quando recebeu a notícia. Pouco tempo depois, tinha ido para a Quinta da Boa Vista. Especialista em Malacologia, ele só se apresentaria no museu no dia 10 deste mês. Ex-aluno de mestrado no departamento, voltar para aqueles corredores como professor era mais do que um êxito. Ele voltaria ao lugar que foi fundamental para sua formação e poderia continuar a catalogar os espécimes novos de planárias que havia encontrado. Agora, porém, via as chamas se aproximarem do prédio onde as amostras estavam. "Quando você encontra um novo ser, é preciso levá-lo ao laboratório, descrevê-lo, desenhá-lo, tirar foto e, claro, manter o exemplar contigo para futuras pesquisas. Sem a amostra, a nova espécime não pode ser considerada", explicou.

A principal preocupação de Padula era que o fogo chegasse ao prédio anexo, na lateral do Museu. Era lá que ficavam a coleção de invertebrados, cuja maioria estava embebida no álcool. Na hora em que chegou à Quinta, o incêndio ainda não tinha chegado a essa parte da construção, mas com a falta d'água no combate às chamas e estrutura de madeira do prédio, era questão de tempo. Tentou alertar os bombeiros, em vão. Caso o fogo tocasse os vidros com álcool, aumentaria os focos de incêndio e poderia haver explosões.

Quando as labaredas saíram das janelas na lateral direita do prédio, ameaçando lamber o anexo, os bombeiros apontaram a mangueira para lá. Padula, impotente, sentou e observou. Tinha-se passado da meia noite. Ele falava de todo o acervo que estava ali, do material para pesquisa que havia se perdido e do tempo em que era aluno. Contou que na fazenda de sua avó, quando era pequeno, já acontecera um incêndio e que, por isso, sabia como ficaria o prédio depois. Houve também momentos em que esteve em silêncio, olhando apreensivo para as chamas.

Não sei quanto tempo ficamos ali, mas o fogo acalmou. O piso de madeira ainda ardia, porém, o risco das chamas se alastrarem e irem para o prédio vizinho era pequeno. Parte do Departamento de Invertebrados conseguiu escapar do incêndio. "É estranho ver que seu futuro escritório é a última parte do museu a pegar fogo", disse Padula, antes de ir embora, "mas é um milagre que o fogo não tenha chegado ao anexo".

Comentários

  1. Muito triste. Desestimulante fazer pesquisa sabendo que o descaso pode resultar em tragédias como essa.

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  2. Você escolheu um personagem perfeito pra descrever a tragédia desse incêndio. Parabéns.

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