Uma pequena homenagem à família Do Re Mi
No
momento que Seu Francisco entrou pela capela, o mundo inteiro se calou. Ele
andava, com toda sua humildade, segurando um pequeno buquê de flores
alaranjadas. Manteve a cabeça baixa e focada no seu afazer, traço que ainda
guardava dos tempos que servia em bufês. Na hora que puxou o véu para colocar
as flores dentro do caixão de sua mulher era como se nada mais importasse a não
ser o que acontecia ali. O silêncio, que já estava presente, se tornou ainda
maior. A nora, que vigiava a sogra como uma leoa, não se moveu; nem a neta, que
se mantinha aos pés da avó, e que segurava as lágrimas que teimavam em manchar
o vestido amarelo; ou o filho, que havia organizado todo aquele velório
arranjado da mãe. Nem mesmo a mosca que batia contra a janela teve coragem de
macular aquele momento tão sagrado.
Seu
Francisco ajeitava as flores alaranjadas em meio a todas as brancas que cobriam
Dona Gilda. Ela, serena, dormia — cansada da luta que acabara de travar e feliz
por estar ao lado de toda família que havia criado. Para Dona Gilda, era como
se o dia inteiro tivesse sido de trabalho, mas que na hora da janta, a família
havia enchido a mesa. E, por isso, sentia-se feliz quando encostou o rosto no
travesseiro e deixou que os sonhos voassem para longe.
Naquela
cena, miúda e humilde, só havia duas únicas estrelas: Francisco e Gilda, que
eram miúdos e humildes. Não de dinheiro, mas de simplicidade. O que acontecia
ali nunca poderia ter sido pensado por qualquer um dos imortais de alto escalão
da literatura brasileira — por mais que seu valor fosse infinita vezes maior do
que uma obra inédita do mulato escritor. O que havia ali era o que houve em
todos os muitos anos que o casal esteve junto (mesmo com o bigode branco que
Seu Francisco cismava em manter caso o Vasco viesse a ser campeão). Aquele era
o amor puro que os dois ensinaram para o único filho, a nora, os netos e todos
os outros agregados que chamavam de família.
E que
agora se tornou saudades, as três flores alaranjadas que Dona Gilda vai levar
para sempre nos seus sonhos.
*O texto foi escrito em setembro de 2017, uma homenagem à Dona Gilda e a toda sua família.
Você tem muito talento, menina. Arrasou.
ResponderExcluirLindo texto! Poste mais coisas assim, você escreve muito bem!
ResponderExcluirEu imaginei a cena na minha mente. Que lindo, uma poesia.
ResponderExcluirEmoção pura. Texto lindo
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