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Uma pequena homenagem à família Do Re Mi

No momento que Seu Francisco entrou pela capela, o mundo inteiro se calou. Ele andava, com toda sua humildade, segurando um pequeno buquê de flores alaranjadas. Manteve a cabeça baixa e focada no seu afazer, traço que ainda guardava dos tempos que servia em bufês. Na hora que puxou o véu para colocar as flores dentro do caixão de sua mulher era como se nada mais importasse a não ser o que acontecia ali. O silêncio, que já estava presente, se tornou ainda maior. A nora, que vigiava a sogra como uma leoa, não se moveu; nem a neta, que se mantinha aos pés da avó, e que segurava as lágrimas que teimavam em manchar o vestido amarelo; ou o filho, que havia organizado todo aquele velório arranjado da mãe. Nem mesmo a mosca que batia contra a janela teve coragem de macular aquele momento tão sagrado. Seu Francisco ajeitava as flores alaranjadas em meio a todas as brancas que cobriam Dona Gilda. Ela, serena, dormia — cansada da luta que acabara de travar e feliz por estar ao lado de toda f...

A partilha

Contigo, ficou minha blusa, um par de livros e toda a coletânea de Vinícius. Comigo, os cabides, uma calça jeans, alguns chás e sua blusa antiga de escola. O casaco amarelo, você não me deixou levar.  O mar dividimos às vezes, cada um em seu lugar. Peguei de volta o travesseiro e roubei ainda a toalha de praia. A minha canga, você perdeu.  A prancha de surfe eu guardei, na esperança de você buscar. Para trás, ficaram os sabonetes e xampús, na pia do banheiro, e o resto do jantar, na geladeira. As plantas nós esquecemos sem querer.  Você levou a carta, ainda com as palavras bobas, e um presente para sua mãe. Eu guardei o desenho. No corredor, o lixo ficou fora da lixeira.  Já a saudade, ela ficou naquela casa de terceiro andar, sem elevador, e com a vista pra rua. *texto publicado originalmente em abril de 2017, Rio de Janeiro.

Vultos do incêndio: o novo professor de Zoologia

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Camila Zarur Sentado em frente à lateral direita do Museu Nacional, Vinícius Padula observava queimar o seu futuro escritório. Na última sexta-feira, 31 de agosto, havia tomado posse para o cargo de professor no Departamento de Invertebrados da UFRJ, com base no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Estava animado para começar no novo emprego; dois dias depois, soube do incêndio no prédio histórico. O fogo começou por volta das 19h30 do domingo, 2 de setembro. Padula estava na casa do pai, em Vila Isabel, quando recebeu a notícia. Pouco tempo depois, tinha ido para a Quinta da Boa Vista. Especialista em Malacologia, ele só se apresentaria no museu no dia 10 deste mês. Ex-aluno de mestrado no departamento, voltar para aqueles corredores como professor era mais do que um êxito. Ele voltaria ao lugar que foi fundamental para sua formação e poderia continuar a catalogar os espécimes novos de planárias que havia encontrado. Agora, porém, via as chamas se aproximarem...

Eu só quero me formar

Esse não é um blog sério. Então, por favor, não leve a sério . Quando entrei na universidade, há longos seis anos, era só mais uma recém saída do ensino médio e que não tinha ideia alguma do que iria fazer dali pela frente. Tinha acabado de ingressar no curso de Moda da PUC-Rio e tudo que podia pensar é que seria legal me tornar editora de alguma revista de moda no futuro. Uma Miranda Priestly versão brasileira. Não durou um ano e essa ideia me parecia absurda. Tomei, então, a decisão de mudar de curso. Poderia escrever três enormes parágrafos de porquê acabei parando no Jornalismo. Mas, talvez, o maior motivo foi o livro "Dignidade", uma coletânea de histórias vividas por jornalistas durante missões com os Médicos Sem Fronteiras. Mais especificamente o capítulo do mal de chagas na América Latina. Para alguém que romantiza tudo, era essa a vida que queria levar: contar histórias — seja quais fossem. Hoje, cinco anos depois de tomada essa decisão, finalmente poss...